OBLATA AOS IDOSOS
Faz
bastante tempo. Eu era ainda moço, contava pouco mais de trinta anos e
trabalhava, na esfera tecnológica, na Telebahia, em sua sede no bairro de
Nazaré, nas proximidades do Forum Rui Barbosa, em Salvador.
Tinha
por costume, diariamente, à tarde, fazer um intervalo para um lanche, quando,
invariavelmente, me dirigia ao hall de um modesto edifício residencial próximo,
onde funcionava uma pequena lanchonete, isso para, por alguns minutos,
regalar-me com finíssimos doces e a sempre agradável conversa com os seus
proprietários, um casal extremamente simpático, comunicativo e de excelente
nível cultural. A lanchonete tinha boa e seleta frequência e, assim, sempre
tínhamos a oportunidade de ouvir opiniões sobre os mais variados assuntos.
E
foi assim que, certo dia, durante a minha estada naquela lanchonete, enquanto conversava
com Domingos e Any - proprietários do estabelecimento – ali entrou um homem,
trajando paletó e gravata, que, cumprimentando efusivamente o casal, enredou
uma conversa que, em pouco tempo, passou a ter como protagonista principal o
seu pai, que com ele residia no terceiro andar de um prédio, com apenas três pavimentos
e sem elevador.
Ao
se referir ao seu pai, o homem, que aparentava ser um advogado vindo do Forum,
despejou sobre nós uma enorme quantidade de queixumes, culminando por dizer que
não mais sabia o que fazer para que o seu pai deixasse algumas práticas que lhe
eram prejudiciais, como as de comer o que não era recomendável, a exemplo de doces
que, para burlar sua fiscalização, escondia por toda a casa, chegando, até
mesmo, a escondê-los debaixo do seu travesseiro.
Continuando
sua ladainha de penas, disse que, por mais que ralhasse com ele, ele não se corrigia, explicando que, desse
jeito, ele não estava contribuindo para prolongar a sua existência e que, esse estado
de coisas estava a provocar muitas dissensões e rusgas entre eles, o que muito
o penalizava, pois, amava muito o seu pai e temia pelo encurtamento de sua vida
e pela sua perda.
A
essa altura, intrigado com tudo aquilo, ousei perguntar-lhe a idade do seu pai,
ao que me respondeu que ele já contava oitenta e seis anos. Ás minhas perguntas
seguintes respondeu que sua mãe já era falecida e, seu pai, portanto, vivia só
e, já com muita dificuldade de locomover-se, tinha por passa tempo, apenas, ouvir rádio e
assistir televisão, à época, só dois canais em preto e branco.
Diante
daquelas respostas, oferecidas com tanta sinceridade a espelhar o grande apego ao
seu pai, de quem falou, também, com muito amor e gratidão pelos cuidados, pelo carinho e pelo desvelo
que foram a tônica da sua criação e educação, não me contive e, pedindo-lhe
prévias desculpas, ousei afirmar que ele estava tendo, para com o pai dele, um
comportamento “egocêntrico”.
De
pronto, ele me interpelou com veemência: “Como
você pode me dizer algo assim, se, em verdade, o que mais faço é desvelar-me em
proporcionar a ele tudo que, no meu entender, nessa fase de sua vida, ele mais
precisa? Não lhe falto com o meu
carinho, com a minha companhia, com o conforto que lhe posso oferecer, sem
falar em uma esmerada assistência à sua saúde”.
Eu
tinha certeza de que ele estava sendo autêntico em seu discurso, quando tratava
do apego e amor ao seu pai. Mas..., sentia que, justamente, esse apego é que o bloqueava
ao ponto de não perceber os valores, anseios e propósitos que assolam e alentam
alguém numa idade avançada e já consciente da proximidade do seu passamento.
Expliquei,
então, que, no meu conceito, as pessoas, ao galgarem uma fase da vida em que a
idade cronológica, naturalmente, as priva de todas aquelas coisas que a
juventude proporciona e as faz sentir sem mais tempo para desenvolver
aspirações antes não alcançadas, mudam os paradigmas dos seus valores, fazendo
com que deem menor importância à longevidade, para dar extraordinário valor a coisas
agradáveis e que lhes proporcionem satisfações imediatas, desconsiderando se
tais satisfações poderão, ou não, contribuir para o encurtamento das suas
existências.
Por
isso mesmo é que, privá-los, excessivamente, dos seus desejos e de agir do modo
que ainda podem agir, isso, apenas, como um meio de evitar um possível
encurtamento do tempo que os teria junto a si, não pode ser considerado senão
como um comportamento egocêntrico.
Diante
disso, aquele homem quedou silente por algum tempo e depois de organizar as
suas ideias, virou-se para os presentes e, como se estivesse sentindo aliviado
e contente, assim retrucou, referindo-se
à nossa conversa: É por esse tipo de
coisa que eu, sempre que posso, gosto de fazer contato com muitas pessoas, para
colher opiniões sobre o que pensam a respeito dos diversos aspectos da vida e, também, da
religião que as orienta. O que aqui conversamos agora, sem dúvida alguma, será
o tema da minha homilia na missa que celebrarei no próximo domingo.
Positivei,
então, aquele homem, além de advogado, era, também, um Padre Católico dotado de
uma luminar humildade, capaz de, desprezando o pedestal de Ministro da Igreja,
selecionar a ideia principal do tema, para transmiti-la no exercício do seu
pastorado.
Pois
bem, muitos anos se passaram desde que aquele Padre celebrou a missa dominical
na qual pregou sobre o tema de que tratamos. Atualmente, quando o incremento da
expectativa de vida está a determinar um sensível aumento da população de
idosos, justificando uma maior preocupação de todos para com esses indivíduos,
inclusive da classe médica, a enfrentar tratativas como as da ortotanásia, senti-me estimulado a, mais
uma vez, suscitar esse tema.
É
que, os que se inserem nesse contexto, mormente quando improdutivos, ou seja,
quando não podem ou quando não se lhes dão a oportunidade de se dedicar a uma atividade produtiva
compatível com as suas capacidades físicas, deixam de ter aspirações que não
sejam imediatas, e, por isso mesmo, não se apegam à longevidade.
O
que, inquestionavelmente, passam a apreciar, desejar e querem, é que o final de
suas existências seja, ao menos, preenchido com sensações agradáveis, como, por
exemplo, as de agir conforme seus costumes e suas consciências, sem privação de
seus desejos possíveis.
Hoje,
mais que antes, o assunto está a merecer
assimilação por parte dos menos idosos, para concitá-los a não se
posicionarem como egocêntricos ou egoístas, isso para propiciar aos idosos o pleno exercício da liberdade de agir segundo
os seus próprios conceitos, princípios, valores e apreços.