A DESPEDIDA
Manhã
de claridade difusa, de um sol filtrado por brumas que se dispersam abafando a
melancolia de um bucólico ambiente.
Uma
sala terminada ao lado por uma varanda ao rés do chão, elevada de um degrau,
guarnecida por gradil artisticamente trabalhado em rebusques de metais torcidos
e fundidos, pintados em cinza escuro e encimado por parapeito de madeira
envelhecida ao tempo, deixando ver, lá fora, os muitos matizes do verde das
folhagens de um jardim.
Da
sala, não tinha eu a visão periférica que me permitisse vislumbrar o teto, os
lustres, ou os móveis que a guarneciam e os cortinados que pressentia por traz
de onde vislumbrava, apenas, o foco dirigido àquela varanda e o piso que a ela
conduzia, de pedras não polidas, de cortes irregulares, também, artisticamente
assentadas.
Tudo
estava calmo, muito calmo. Eu nada ouvia que não um silêncio altamente
aconchegante que me incitava à percepção por meio d’alma, estimulando o
menosprezo dos sentidos físicos.
Na
varanda, próxima ao parapeito e de lado para ele, uma mulher de pé, de tez
clara, muito clara, cabelos lisos e longos, castanhos tão escuros que se
aproximavam do negro, descalça, vestindo um alvo e longo robe em tecido denso, sedoso
e de caimento impecável, mangas, também longas, permitindo ver, apenas, as suas
mãos e precebê-las lânguidas e frágeis.
Não
via o seu rosto, mas, minha mente, nele percebia traços de uma beleza
angelical. Tudo em torno dela resplandecia, pois, resplandecente era a energia
que dela emanava e que me contagiava por inteiro.
Da
cena, mais ninguém participava além de um homem de estatura média, tez curtida
pelo sol, cabelos castanhos, densos e anelados, fardado em azul ultramar, botas
pretas de cano longo e culote ladeado por um par de frisos longitudinais
bordados em dourado e encimado por cinturão com porta espada abaixo da ilharga
esquerda, dólmã curto fechado ao peito e até ao pescoço por botões dourados,
gola guarnecida nas duas laterais por
símbolos heráldicos em vermelho, os mesmos dos galões, e, no peito, ladeando os
botões, três filas paralelas de bordados
arabescos em dourado, além dos alamares que completavam o seu paramento militar.
O
homem dela se aproxima a passos lentos, enquanto ela lhe estende os braços. Ele
toma as suas mãos, levando-as aos lábios para beijá-las carinhosamente. Ela, emoldurando-lhe
o rosto com as suas mãos, acaricia-o e o traz para junto ao seu, beijando-o nos
lábios com um beijo antigo que abriga um amor profundo e infinito
Seus
corpos se unem, então, num longo, afetuoso e apertado abraço que se afrouxa,
apenas, com a iniciativa dele de afastar-se de modo rápido, empreendendo uma
luta atroz contra o desejo, imenso desejo, de ali, com ela, permanecer infinitamente.
Inexplicavelmente,
daquele homem, sinto todas as sensações de afeto, de amor, de carinho, de
desejo de não ir, de dor da ausência que se inicia e, assim, nele me percebo e
me encontro no ofuscar daquela cena de despedida, daquele adeus de então, que perdura através dos tempos e espaços do
infinito, até o presente,envolvendo-me em sentimentos e perda e de saudade que
perdurarão até o reencontro no tempo, na forma e no espaço merecidos.