A INDECIFRÁVEL MENSAGEM

A INDECIFRÁVEL MENSAGEM



Numa clara manhã do mês de setembro, nos idos de 1984, acompanhei minha mulher ao hospital onde ela iria se submeter a  uma cirurgia para a correção de um problema muscular decorrente da sua última gravidez.

Lá chegando, uma vez designado o apartamento destinado à sua internação, para ele nos dirigimos e arrumarmos os nossos pertences nos locais próprios. As enfermeiras prepararam-na para a cirurgia, após o que, ficamos no aguardo da ordem médica para a sua ida ao centro cirúrgico, o que não tardou a acontecer.  

Permaneci no apartamento onde a única coisa que tinha a fazer era esperar. isso, num contexto que,  apesar do conforto do apartamento, não era  agradável, mormente pela inafastável apreensão.

Assim, para passar o tempo, li alguns artigos de uma revista que havia comprado e, depois, sem imaginar outra coisa que pudesse fazer, pratiquei alguns alongamentos, espreguicei-me, respirei fundo e me estirei no sofá-cama do acompanhante.

Passados alguns minutos, repentinamente, entrei em um estado letárgico inexplicável. Senti-me adormecido, incapaz de me mover, porém, absolutamente, lúcido e, nesse estado, vi-me transportado para outro lugar.

Foi como se me houvessem retirado daquele sofá-cama do hospital e, num passe extremamente rápido, me transportado para  uma das poltronas de um vagão de trem em movimento.

Era um vagão de um trem antigo, daqueles usados para viagens não muito longas, possuindo duas fileiras laterais de poltronas duplas, com um corredor ao centro. Não estava repleto de passageiros, existindo, ainda, muitas poltronas desocupadas, inclusive aquela localizada ao lado da que eu me sentia sentado. As portas dianteira e traseiras que davam  passagem para outros vagões e as de entrada e saída de passageiros  estavam fechadas, assim como as janelas laterais que, também, tinham as respectivas saneflas baixadas, de tal modo que nada se podia ver do lado externo do vagão, dentro do qual a iluminação era artificial e constituída, apenas, de fracas luminárias situadas no teto sobre o corredor central.            

O trem, que, até então, desenvolvia a uma velocidade normal, começou a desacelerar até que foram aplicados os freios e, após se ouvir aquela ruidosa descarga da pressão da sua caldeira, parou como se houvesse chegado a uma das estações do seu percurso.

Inicialmente, após a parada total do trem, fez-se um tumular silêncio e, logo após, pôde-se ouvir, vindos do lado de fora, muitos gemidos, lamentos e choros, até convulsivos.  Nenhum dos passageiros, entretanto, ousou sequer afastar uma das saneflas para ver o que se passava externamente. Todos permaneceram imóveis e em silêncio  
 
                 
Nesse instante, adentrou, pela porta dianteira do vagão, um dos  Condutores do trem, trajando um fardamento escuro com um dólmã adornado por botões bronzeados e um boné redondo,  alto e rijo, com as bordas guarnecidas por frisos, também, cor de bronze.

Ele se posicionou no início do corredor, de frente para os passageiros, firme como um militar em posição de sentido e, em voz alta e forte, pronunciou o seguinte discurso: “Passageiros..., neste ponto da linha, não podem falar na doença. Ou respeitam este ponto da linha, ou contraem a doença.”

Após o discurso do Condutor, tão repentinamente quanto se deu a minha entrada naquele estado de letargia, dele saí, para me encontrar, novamente, no apartamento do hospital, deitado sobre o sofá-cama do acompanhante. Sentia-me, no entanto, estranho, com um formigamento em todo o corpo e dormência nas extremidades.

Para me recuperar, levantei, saí do apartamento, fui até a área externa do hospital, andei um pouco e retornei ainda muito encabulado com o que havia experimentado e sem que pudesse afastar da minha mente aquele discurso do Condutor do trem.

Naquele mesmo dia, quando minha mulher já havia retornado da cirurgia e ainda dormia sob efeito de medicamentos, passei mais uma vez pela mesma experiência, o que me deixou, atônito, mas, principalmente, contemplativo, posto que ávido para alcançar o significado de tudo aquilo.

Nos meses que se seguiram, por mais duas vezes voltei mergulhar naquele ambiente, ouvindo aqueles gemidos e aquele discurso docondutor do tal trem.  Isso extremou a minha contemplação sobre o fato, conduzindo-me a uma frenética busca pelos valores, prédicas ou recomendações que pudessem ali estar inseridas. Era como se eu buscasse, sem qualquer possibilidade de êxito, uma fórmula mágica para a resolução de equações da vida.

Em verdade, nunca consegui,  vislumbrar, sequer, um significado  específico para aquilo que sedimentei, no meu recôndito entendimento, como uma mensagem indecifrável. Com o tempo, no entanto,  pude perceber que, metaforicamente, ela se aplicou a diversas situações de perplexidade que a vida me impôs desde então, direcionando-me através dos caminhos da serenidade, da paz e da consciência ética, isso para, algumas vezes, impor a mim mesmo  mudanças de comportamento e, outras vezes, para me fazer aceitar, com respeito, sem alaridos ou revoltas, o que pressentia  que não podia vencer.

Só presentemente, após muitos anos decorridos daquela passagem, fui induzido, por intuição tão misteriosa quanto o próprio fato, a registrá-lo neste escrito e a divulgá-lo como um benéfico “convite” para ocupar lugares, ainda vagos, naquele vagão de trem.